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Franceses se unem a DJs e MCs brasileiros para musicalizar
Notícias - Pará
Qua, 16 de Maio de 2012 16:09

poemas de autores clássicos e contemporâneos nacionais


Cruz e Souza, Machado de Assis, Mário de Andrade, Sergio Vaz, Max Martins são alguns escritores e poetas cujos textos ganharão versões musicadas. Projeto se transformará em objeto de estudo em sala de aula.

Não é de hoje que artistas franceses se apaixonam pelo DNA da cultura brasileira. Que o diga Pierre Verger, que tão bem retratou a cultura e o sincretismo religioso da Bahia em suas fotografias. Essa paixão prossegue nas relações Brasil-França. Um bom exemplo é o “Manual de Literatura (En)Cantada”, projeto cujo objetivo é produzir um livro-CD que resultará num show, reunindo textos musicalizados de autores nacionais e afro-brasileiros, como Cruz e Souza, Machado de Assis, Mário de Andrade, Sergio Vaz, João Antônio, e, como convidado especial, o poeta francês Aimê Césaire (das Antilhas). Os textos ganham versões de rap, samba, baião, entre outros estilos. Improvável? Não para eles.

Com previsão de lançamento para junho de 2012, o Livro-CD é concebido desde julho de 2010 em um tradicional reduto reconhecido internacionalmente, a Casa do Hip Hop, em Diadema, no ABC paulista. Os músicos franceses Frédéric Pagès e Xavier Desandre-Navarre são dois apaixonados pela língua e cultura brasileira, coordenam os trabalhos junto a um grupo de nove DJs, MCs e dançarinos, todos com trabalhos estabelecidos na cultura do Hip Hop e na arte-educação. O Manual de Literatura (En)Cantada é uma realização da Zulu Nation Brasil e Le Grand Babyl, de Montreuil, na França, com apoio da Prefeitura Municipal de Diadema, Institut Français e patrocínio da Petrobrás. Vale lembrar que Frederic faz essa ponte Brasil – França há cerca de 30 anos, não é novato em “experienciar” a cultura brasileira somada à francesa.

As atividades consistem em oficinas de criação e durarão seis semanas, com sessões de gravação do CD, com término previsto em maio de 2012, além dos trabalhos de elaboração dos textos do Manual, apresentando os autores e sugerindo abordagens pedagógicas, das gravações musicais e da arte-final. O Manual de Literatura (En)Cantada vai oferecer aos alunos e professores do Brasil, e a todos os interessados em língua portuguesa, artes, dança, música e juventude, uma abordagem criativa - baseada na estética do hip hop, da literatura brasileira, em especial a afro-brasileira. Obedecendo aos critérios da lei 10639/2003 (ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira), o Manual promove a reflexão sobre o papel fundamental do negro na construção da identidade brasileira por meio da cultura, das letras, da arte e da música. O resultado surpreendente poderá ser conhecido nas salas de aula de Diadema e, em breve, do Brasil.

Criação Coletiva e trabalho profissional

Com uma freqüência quase diária, o grupo se debruça sobre textos que, à primeira vista, dificilmente ganhariam harmonia e arranjos musicais, como o “Manifesto Antropofágico da Periferia”, de Sergio Vaz. A concepção é coletiva. De linha a linha, estrofe a estrofe, o grupo debate como a métrica da poesia se encaixa melhor às bases pré-gravadas no equipamento de Xavier, percussionista que dividiu palco com músicos do quilate da pianista brasileira Tania

Maria, Gil Evans (arranjador de Miles Davis), Dj Laurent Garnier e o saxofonista David Sanborn, além de músicos africanos como Manu Dibango. Discutem qual a melhor forma de cantar os poemas, os ritmos mais adequados, os jogos de sons, os jogos de palavras, o respeito à métrica dos textos, a preservação dos conteúdos, tudo isso em meio a improvisos de repente, rap, poesia cantada e concreta.

O espírito colaborativo permeia até as atividades pré-ensaios e gravações. Alongamentos e aquecimentos respiratórios são realizados sempre em grupo. Os textos dos autores são estudados, as palavras decoradas e logo depois adaptadas ao sabor das músicas. “Tem que trabalhar a respiração e *namorar* o texto com a voz e com o corpo, mas não se preocupem com a intenção dramática agora, vocês vão senti-la, ela virá naturalmente ”, orienta Frédéric em uma das oficinas. Além de ser uma oportunidade de crescer em termos de experiência musical e também literária, poética, artística, cultural e humana, o projeto Manual de Literatura (En)Cantada paga cachês profissionais aos músicos, o que permite tranquilidade suficiente para que deem continuidade em seus projetos particulares e estudo.

Projeto vai transformar em objeto didático

O Manual de literatura (En)Cantada vai se tornar um canal de experimentação artística para o público e, principalmente, objeto didático que poderá ser utilizado em sala de aula por estudantes e transformar-se em uma grande ferramenta de trabalho para os professores, que, com este projeto, podem criar um canal direto entre os alunos e a literatura. É importante ressaltar que neste projeto estão presentes os cinco elementos do Hip Hop na concepção/ feitura do trabalho. Não só o rap (MC e DJ), mas o grafite, o break e, principalmente, o chamado quinto elemento: o conhecimento. Essa será a linha mestra também da abordagem pedagógica do livro, que embora voltado principalmente ao estudo da língua, da literatura brasileira e afro-brasileira, o livro trará elementos para que professores de artes plásticas, educação física, música, história, etc., possam trabalhar os conteúdos de maneira transversal.

“A técnica pode servir às escolas que se interessarem em incluí-lo como conteúdo diferenciado durante as aulas de literatura, proporcionando dinamismo aos estudantes e estabelecendo um diálogo entre cultura e educação”, explica Pagés, idealizador do projeto, casado com uma brasileira, admirador da música nacional e seguidor do educador Paulo Freire. O namoro de Pagés com a cultura brasileira é antiga. Realizando intercâmbios culturais com o Brasil há pelo menos 30 anos, ele foi produtor de CDS e turnês de artistas como Hermeto Pascoal e Pau Brasil nas décadas de 1980 e 1990. Cantor e compositor, Pagés cantou e gravou com Mônica Salmazo, Paulo Morelenbaum, Maurício Einhorn, Juarez Moreira, Rodolfo Stroeter, Lelo Nazário, entre outras dezenas de músicos brasileiros. Frédéric e Xavier chegaram à cidade por intermédio de uma parceira entre as cidades de Diadema e Montreuil, na França, para desenvolver projetos de oficinas em 2009, para comemoração do Ano da França no Brasil. A partir desta relação surgiu o mútuo interesse. Frédéric, encantado com enorme potencial dos artistas de Hip Hop e a prefeitura em promover o encontro inédito entre Literatura e Hip Hop.

Serviço

Onde: Casa de Cultura do Hip Hop – Diadema - Oficinas de criação coletiva –

‘Manual Literatura (En)-Cantada’

Até 5 de maio

De segunda, terça e quinta-feira, das 18h às 22h, e ao sábado, das 15h às 18h

Casa do Hip Hop – Centro cultural Canhema

Rua 24 de Maio, 38 – Jardim Canhema

 

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